3º Desafio Ecológico de Pindamonhangaba

 

Geral: 76ª Corrida 2008: 22ª Corrida

Data: 21/09/2008 – 8h32min (domingo)

Local: R. Cap. Manoel Monteiro César Miné – Campo Alegre – Pindamonhangaba/SP

Distância: 31 km (1ª)

Tempo: 3:19:58

Velocidade Média: 9,3 km/h (2,58 m/s)  Passo: 6:27(-7,55%)

Pontos (Tabela Húngara): 120

Temperatura: nublado/chuva, 16ºC

Valor da Inscrição: grátis, 1 kg de alimento

Número de peito: 005

Tênis: Mizuno Wave ProRunner 10 branco (11)

 

Colocações:

Masculino: 33º (de 33)  100,00%

Categoria 35-39 anos: 4º (de 4)  100,00%

 

Resultado na Web:

http://www.pindavale.com.br/agoravale/noticias.asp?id=6979&cod=2

 

Medalha:

 

Camiseta: não teve

 

Foto:

 

Álbum de Fotos

 

Relato:

Dedico esta corrida e este relato à memória de minha avó, Maria José Scarpa Silveira, falecida nesta quinta-feira, 18 de setembro de 2008, aos 83 anos. Exemplo de alegria, de caráter, de bondade, de dignidade e de amor à vida. Ficará para sempre no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la. Obrigado por tudo, vó querida. Esteja com Deus.

 

Na semana passada eu iniciei o meu relato das Dez Milhas Garoto dizendo que existem umas corridas para competir e outras para celebrar. Há também um outro tipo, as para homenagear. Depois de uma semana extremamente tumultuada que, por conta primeiro da longa viagem de volta de Vitória; e depois dos problemas de saúde da minha avó, acabou praticamente não tendo treinos de corrida (apenas um, e na esteira) ou mesmo de musculação, o mais sensato seria simplesmente cancelar a minha participação nesta prova. Afinal, 31 km por si só já costumam ser uma distância bastante complicada. Sem treinar e com tudo o que aconteceu durante a semana, passou a beirar a insanidade. Eu poderia ter optado, por exemplo, por correr a prova de 5 km em Caraguá na mesma data. Mas não seria a mesma coisa. Era preciso fazer algo grande, difícil, verdadeiramente desafiador. Desistir seria simplesmente devastador para mim neste momento.

 

Ter ao meu lado neste momento o amigo Fabio Matheus fez toda diferença. Em conversas por e-mail durante a semana, ele se mostrou extremamente solidário e superou até uma certa insegurança para correr essa prova, já que fazia pela primeira vez uma distância acima da meia maratona. Não fosse por ele, tudo certamente teria sido bem mais difícil. Obrigado mesmo, xará, fico te devendo mais essa.

 

Como a largada era cedo, às 8h, e com viagem de 60 km, tive que madrugar. Passei primeiro na casa do xará e de lá fomos para Pinda tentar localizar a tal da primeira rua à direita depois do Pão de Açúcar. Tivemos que recorrer ao celular do organizador, Maurício, que se mostraria solícito várias outras vezes depois. Impressionante ver como algumas pessoas realmente se dedicam naquilo que fazem. O camarada organizar uma corrida sem cobrar valor de inscrição (apenas 1 kg de alimento para doação), usar a própria casa como concentração, guarda-volumes, banheiro, etc. Com poucos recursos e bastante simplicidade, mas sem deixar faltar praticamente nada do que vemos nas corridas comerciais. Distribuição a là vontê de água antes da prova, coisa que não teve nem na badaladíssima Garoto, por exemplo. Marcação de quilometragem no chão (o que interessa é ter, afinal!) feita à mão, pelo próprio organizador (que disse até que tinha feito só na ida, já que na volta tinha dado dor nas costas nele). Só com muita abnegação e amor ao esporte mesmo. Só resta a nós, corredores, aplaudir.

 

A combinação de pouca divulgação e distância fora do usual atraiu poucos corredores para o evento, cerca de cinquenta apenas. Nível altíssimo, cobras criadas por todo lado, veteranos com know-how de sobra. O resultado seria inevitável: largar na rabeira. E por lá ficar. Atraso até houve, de praticamente meia hora, mas foi justificado como sendo para aguardar a liberação do pessoal do trânsito. Eu e o xará vimos todo mundo disparar na frente e logo desistimos de tentar acompanhar. Sem conseguir diminuir a distância do bloco logo à frente, com seis ou sete corredores, o ritmo no primeiro quilômetro já foi de 5:26. Pra quem queria fazer a prova toda na casa de 6 min/km, era exagero.

 

A sorte grande de todos ali era o tempo. A semana alternou dias de sol e chuva e o final dela foi todo nublado ou chuvoso. A temperatura caiu bastante no sábado e assim ficou no domingo. Fizesse calor, talvez muitos não terminassem essa prova de hoje, eu aí incluso. Durante a semana eu havia recebido uma mensagem do Valdeke, corredor local de Pinda e com nove maratonas no currículo, me alertando para o grau de dificuldade dessa corrida. Assustou um pouco, principalmente quando o encontrei pessoalmente e ele começou a contar detalhes sobre a parte montanhosa, na região do retorno dos 15,5 km. Mais um motivo para continuar em um ritmo bem conservador. No km 2, ele caiu para 5:40. Contávamos, eu e o xará, com a quebradeira de alguns à frente (sem desejar o mal de ninguém, claro), para recuperarmos algumas posições. Mas o que víamos eram os caras abrirem mais e mais distância.

 

Mantivemos o pique no km 3, 5:43 foi a parcial nele, peguei o primeiro copo d’água e comentei com o xará que tudo ali naquele momento lembrava o início da Meia da Praia Grande. As semelhanças parariam por aí. Os primeiros trechos em desnível começaram logo a aparecer. Descidas e subidas leves no começo, nada que assustasse à primeira vista. Veio um km mais alto e um bem mais baixo logo em seguida, o que mostrava que a marcação de quilometragem não estava lá muito precisa. Passamos por debaixo da Dutra e entramos na longa estrada em direção a Lagoinha. Uma meia maratona inteira para fazer por ela. E pouquíssimos trechos sem inclinação. Ou a gente subia, ou descia. E para onde quer que olhasse, ou via vaca, ou comida de vaca, ou descomida de vaca. Não é todo dia que se passa correndo pela 3ª ponte entre Vitória e Vila Velha, né?

 

Desde o trote de aquecimento, senti a minha respiração meio estranha. Um pouco ofegante antes mesmo de começar a correr de verdade. Durante a prova então, chegou a atrapalhar. Apesar do ritmo confortável, sentia uma certa dificuldade de coordenar a respiração e chegou até a dar dor no baço, coisa que não sentia desde os primórdios como corredor. O ritmo parecia constante, as parciais variavam um pouco, mas os tempos de 40’ baixo nos 7 km, 45’36” nos 8, 51’ alto nos 9 e 56’30’’ nos 10 indicavam que estávamos indo até melhor que o esperado. Ultrapassar alguém parecia coisa fora de cogitação, mas conseguir manter essa batida abaixo dos 6 min/km, até que não. Só tínhamos esquecido de uma coisa: A SERRA!!!

 

Ela apareceu, ameaçadora, primeiro de longe, só no visual, depois sob os pés. Jogou a boa média de velocidade lá pra baixo e provocou o primeiro pace ruim da prova, o do km 11, de 7:34. E foi piorando. Os primeiros corredores já começavam a voltar, em descida e a todo embalo. E a gente ali, parecendo caminhão carregado de areia. O cansaço e a falta de treinamento começaram a dar sinais de vida. E o caminhão mais rodado e com mais carga começou a bater pino. O xará abriu quando eu andei pela primeira vez. A moça da ambulância, que vinha logo atrás, já quis saber se era desistência e perguntou se eu não queria subir lá dentro. Agradeci e voltei a trotar. O pace do km 12 foi de desanimadores 8:10. A subida, cada vez pior. Lembrava até a da Tamoios, vindo de Caraguatatuba. Até ouvido entupido deu. Já tinha aberto dois dos quatro sachês de gel de carboidrato, buscando recuperar um pouco da energia perdida. Mas ela só reapareceu mesmo quando finalmente começou a descida. Os corredores voltando e andando na subidaça da volta apoiavam e eu agradecia a cada um que passava e dava uma força. A sensação era de renascimento. Cheguei no km 15 com quase 1h32min, tempo já alto, mas ainda com perspectiva de me recuperar. Pena que acabou logo. Veio o retorno, onde as cidades de Pindamonhangaba, Taubaté e Lagoinha se encontravam, os corredores jogavam a senha para comprovar a passagem (sem chip) e ali começava de novo a subida. Ainda pior que a da primeira metade da prova.

 

Até tentei correr, no ritmo menos lento possível, mas simplesmente não dava. Andar talvez fosse até mais rápido, tão inclinada era a lomba. E além de tudo, interminável, mais de 1,5 km só de subida. Eu até via o xará uns 100m acima, mas não dava pra chegar, até porque a passada dele andando é maior e difícil de acompanhar. A ambulância grudada ali atrás, querendo porque querendo me levar de passageiro de todo jeito. Eu só resistindo. Quando finalmente acabou a subida mais difícil que eu já vi em qualquer corrida, voltei a ser corredor. A distância para o xará tinha aumentado bastante, mas as curvas em “S” morro abaixo foram feitas com gosto. Tinha começado a chover, o frio aumentara ainda mais. Alcancei o xará quando a pista ficou momentaneamente plana de novo. Foi a parte mais agradável de toda a corrida, lembrou aquele nosso treino de 19 km debaixo de tempestade em Taubaté, quando ele decidiu que ia partir para a meia maratona. As marcações na volta tinham sumido, o jeito era fazer conta pelas da ida. Chegamos aos 20 km com 2h05min. Os 6 min/km pareciam difíceis, mas deu até por alguns quilômetros pra sonhar com eles.

 

Além dos postos de água prometidos (e cumpridos) a cada 3 km, o organizador vinha de carro pelo percurso acompanhando os corredores e distribuindo copos extras. O que dizer de uma iniciativa dessas? Coisa rara. Perto do trecho de Serra do Mar, as subidinhas e descidinhas deste trecho do retorno realmente eram no diminutivo. Tomei o terceiro, depois o quarto gel. E vinha numa balada boa, confortável, que parecia até tranquila de manter até o final. Os ritmos oscilavam entre 5:48 e 6:12. Faltava pouco, era aquele trecho em reta, passar novamente por debaixo da Dutra e encarar os menos de 5 km finais. O trânsito, bem controlado na maior parte do percurso, começou a embolar um pouco, apareceram os primeiros motoristas nervosinhos querendo ultrapassar cata-prego e os próprios pregos ao mesmo tempo. Coincidiu com minha queda de rendimento. O xará voltou a abrir e, na primeira subida após a passagem para o outro lado da Rio-SP, tornei a andar. Tinha acabado o gás. Pela terceira vez, tive que recusar a "carona" e afirmar que dali iria até o fim, no ritmo que aguentasse. Pensei em falar que só ia desistir se tivesse cãibra. Ainda bem que fiquei quieto.

 

E foi um ritmo bem fraco. No plano e nas descidas ainda ia mais ou menos, mas a qualquer sinal de inclinação acima, voltava a andar. Estava extenuado. A vontade, a exemplo do que já tinha acontecido na Maratona do Rio, era de acelerar para acabar de uma vez com aquilo, mas faltava perna. O último lugar já estava definitivamente sacramentado, mas ainda dava pra chegar mais ou menos perto do penúltimo (o xará, que acabaria chegando 9 minutos antes de mim). Pelo menos até a panturrilha esquerda, mais uma vez ela, dar uma contraída que mais pareceu um choque de 300 KVolts. Essa ficou na ameaça, mas transformou uma velocidade que já era baixíssima, praticamente numa caminhada. Pior foi outra, na musculatura acima do joelho também esquerdo. Essa limitou ainda mais os movimentos, a cada vez que eu abria a passada, ela avisava que ia estourar. Fui arrastando a perna por mais de 4 km, lentos toda vida. Pedindo até informações sobre o caminho, já que não tinha mais absolutamente mais ninguém à frente pra seguir. Conformado, já que não tinha mais jeito mesmo de correr, agradecendo pelo apoio do staff que ia recebendo pelo caminho.

 

Demorou uma eternidade, mas finalmente apontei na reta final. Aplaudido por uns, sacanaeado por outros (porta de boteco, onde mais poderia ser?) e cumprimentado por corredores que tinham terminado a prova mais de uma hora antes e reconheceram o esforço de quem está bem longe das condições que eles têm. Fiquei verdadeiramente gratificado por isso. Bem como pelo kit que recebemos na chegada, com sacolinha do evento, medalha (quase igual à de Moreira César), frutas (duas laranjas e uma banana), sanduíche e suco. Lembrando, mais uma vez, que a inscrição era gratuita. Premiação para os três primeiros por categoria, com intervalo de 5 em 5 anos, que ficamos assistindo por algum tempo. Duas bicicletas, oferecidas por uma academia local, para os primeiros colocados da prova masculina e feminina (de 15,5 km). Fomos, eu e o xará, parabenizar o Maurício pelo trabalho, agradecer e colaborar inclusive com o churrasco realizado depois da prova, mesmo sem participarmos dele. Reconhecimento.

 

Terminei essa corrida um pouco chateado sim, mas apenas por ter quebrado e mais uma vez ver uma cãibra botar a perder um resultado que poderia ter sido pelo menos um pouco melhor. Mas não por esse papo de ter sido o último. Fosse uma corrida com mais participantes, certamente isso não teria acontecido. Fosse uma mega-prova da Corpore ou da Tribuna, eu teria chegado entre os 50%. Sinceramente, não doeu, foi até interessante a experiência (só não quero repetir isso toda hora!). Onde quer que esteja, tenho certeza de que a minha avó não vai ter se importado com a minha colocação. Pelo contrário, vai estar orgulhosa do neto ter sido capaz de enfrentar até o fim, mesmo com dificuldades, uma prova duríssima como essa.

 

Percurso:

 

Altimetria:

 

Gostei:

do percurso absurdamente difícil, da distribuição de água, do kit pós-prova, do esforço do organizador e dos voluntários para fazer um evento digno

 

Não gostei:

da marcação de quilometragem feita com muito boa vontade, mas pouca precisão

 

Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 4 (só na hora, grátis)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (tranquila)
- Acesso: 5 (fácil de estacionar por perto)
- Largada: 4 (atraso razoável, mas justificado)
- Hidratação: 5 (impecável, mais que suficiente)
- Percurso: 5 (difícil pra valer, mas gratificante de concluir)
- Sinalização: 3 (valeu a intenção)
- Segurança/Isolamento do percurso: 4 (a iniciativa do controle foi boa, mas nem todo mundo respeitou)
- Participação do público: 4 (com chuva e frio, nem dá pra exigir muito)
- Chegada/Dispersão: 5 (sossegada)
- Entrega do kit pós-prova: 5 (sem problemas)
- Qualidade do kit pós-prova: 5 (ótimo, ainda mais para uma prova gratuita)
- Camiseta: - (não teve)
- Medalha: 4 (com distância, mas sem data, bem parecida com a de Moreira César)
- Divulgação dos resultados: 4 (o organizador ficou de mandar por e-mail)

Média: 4,43

Links sobre a prova:
http://www.pindavale.com.br/baladas/fotos.asp?url=2120&qtdfotos=53

Viagem:
63 km, sem pedágio
BR-116 (Dutra)
São José dos Campos/Pindamonhangaba

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