Maratona Caixa da Cidade do Rio de Janeiro

http://www.maratonadorio.com.br

 

Geral: 66ª Corrida 2008: 12ª Corrida

Data: 29/06/2008 – 08h02min (domingo)

Local: largada no Recreio dos Bandeirantes, chegada no Aterro do Flamengo – Rio de Janeiro/RJ

Distância: 42,195 km (1ª)

Tempo: 4:50:48 (líquido) e 4:51:43 (bruto)

Velocidade Média: 8,71 km/h (2,42 m/s)  Passo: 6:54 (-30,43%)

Pontos (Tabela Húngara): 84

Velocidade do vento: pô, sei lá, Leo!!!

Temperatura: dia claro, entre 22ºC e 26ºC

Valor da Inscrição: R$ 64,80 (R$ 60 + taxa de serviços Ativo.com)

Número de peito: 892

Tênis: Mizuno Wave ProRunner 10 branco (7)

 

Colocações:

Geral: 1463º (de 1838)  79,60%

Masculino: 1304º (de 1618)  80,59%

Categoria 35-39 anos: 227º (de 270)  84,07%

 

Resultado na Web:

http://www.maratonadorio.com.br/maratona_geral_masculino.htm

 

Medalha:

 

Camiseta: regata, poliamida

 

Foto:

 

Álbum de Fotos

Vídeo:

 

Relato:

Vamos começar com uma coisa importantíssima. O Ministério da Saúde adverte: maratona não é aventura!!! Por mais que eu tenha brincado com os amigos, unicamente com o intuito de descontrair, nos agradecimentos às mensagens de apoio que recebi antes da prova, dizendo frases “bonitinhas” como tô indo escalar o meu Everest, é indispensável frisar que correr uma maratona é algo que demanda uma preparação, física e psicológica, muito bem-feita e razoavelmente demorada. Esta preparação pode ser feita de várias formas, seguindo um treinamento individual e personalizado feito por um profissional de educação física (o que seria o ideal) ou, na pior das hipóteses e como eu fiz, uma seguindo uma planilha de treinos publicada em uma revista especializada em corrida (a minha foi da Contra Relógio). Portanto, se essa minha história (longa pra caramba, desculpe !) te inspirar, e tomara mesmo que inspire, a também correr uma maratona, vai fundo! Mas, por favor, se prepare pra isso, não vá “de oreia”, achando que consegue sem treinar e blá-blá-blá. Pode até conseguir, vai que você é geneticamente privilegiado e nasceu para isso... Mas os riscos são grandes e pessoas inteligentes os levam em consideração.

 

Cumprida essa “obrigação”, vamos aos fatos: quando decidi, no ano passado, iniciar a minha preparação para a primeira maratona, a ideia era ir para Porto Alegre. Todos dizem que é a melhor escolha para os principiantes, por reunir as melhores condições (percurso plano, temperatura baixa, largada mais cedo, às 7). O tombo que levei brincando com a sobrinhada nas minhas microférias na Bahia mudou tudo. Depois de 45 dias parado e de outros tentando recuperar o tempo e o condicionamento físico perdidos, me inspirei na decisão que o meu amigo Leo Hacidume tomou e decidi: ia tentar também correr a Maratona do Rio. Não seria uma missão fácil, mas eu resolvi me propor um desafio: se no dia 13 de março, praticamente um mês depois de voltar a correr depois da contusão, eu conseguisse fazer um “longão” de 18 km, iria encarar a planilha de treinos que constava na matéria da revista. Foi sofrido, já fazia mais de três meses e meio que eu não corria uma distância dessas, desde antes da São Silvestre. Mas eu consegui: foram 18 quilômetros e 170 metros, que me encheram de ânimo e de esperança. A sorte estava lançada. Sorte para não me contundir mais, bem explicado, porque de resto, seria muito suor e força de vontade. Quinze semanas na planilha, incluindo cinco treinos semanais de corrida (comecei com 50 km de rodagem e fui aumentando gradativamente) e duas sessões de musculação, uma delas também extraída da mesma revista Contra Relógio, mencionada como sendo específica para maratonistas (ou candidatos a). Um dia apenas de descanso na semana. Cansativo à beça...

 

Não dá pra dizer que uma planilha de treinos vá transformar lesma em cheetah, mas ao mesmo tempo que voltei a ganhar resistência para encarar distâncias mais longas, um “efeito colateral” inesperado dos treinos de tiro, ritmo e fartleks previstos e realizados foi um ganho também na velocidade. No decorrer destas semanas, continuei participando de provas curtas e fiz alguns resultados surpreendentes para mim, como o meu recorde nos 8 km na Volta da FEG e o meu segundo melhor tempo nos 10 km no Circuito Viva Bem em Taubaté. A confiança foi aumentando. Os longões iam ficando mais longões, aos 18 km iniciais fui acrescentando dígitos. Na primeira semana de maio pela primeira vez quebrei meu recorde de distância, superando a marca de 25 km que vinha desde a Intepraias de Bertioga. Depois vieram treinos com 27, 29 e 31,8 km. Fechei o mês de maio com 310 km rodados. Fiz uma prova excelente nos 25 km Corpore, baixando meu tempo na distância em 12 minutos. De uma miragem, um “pontinho distante no horizonte” (como eu disse para a Sally do fórum Runner Brasil quando ela me incentivou a tentar correr uma maratona), o Pão de Açúcar no final da prova passou a ser uma coisa palpável. O ânimo era grande, eu falava com amigos nesses dias dizendo que tinha que controlar a empolgação para não entrar em um clima de “já ganhou”. Seguia treinando e treinando um pouco mais...

 

Só que no começo de junho aconteceu algo que quebrou essa maré favorável. Tive uma virose, primeiro parecida com gripe, depois com problemas intestinais. Fiquei uma semana totalmente parado, não conseguia me alimentar direito e perdi quatro quilos (de gordura ou massa muscular?). Quando voltei aos treinos, não conseguia nem trotar 4 km e ainda tive dores musculares tardias depois disso. Foi desesperador constatar o quanto é cruel esse tal de preparo físico, que pra ganhar é uma luta só; e pra perder basta ficar uns diazinhos sem treinar. Perdi, com essa pausa forçada, os treinos talvez mais importantes de toda a planilha, os dois últimos longões acima dos 30 km. É onde, dizem os mais experientes, o “urso monta nas costas”. Eu só fiz isso uma vez e realmente tive essa sensação. Fazer isso mais duas vezes teria sido muito importante. Talvez até decisivo...

 

Faltando apenas três semanas para o “dia D”, um enorme ponto de interrogação tinha então aparecido em cima da minha cabeça. Tive que apelar: fiz, já em plena fase de polimento (as últimas semanas da planilha, dedicadas ao descanso e à manutenção do condicionamento, apenas com treinos curtos e leves), um “longuinho” de 19 km. Foi meio irresponsável, mas foi preciso (e muito gostoso também). Eu precisava saber se ainda tinha jeito pra coisa. Se eu viajasse para o Rio sem isso, sem confiança e em dúvida se tinha ou não condições de completar a prova, a coisa ia pro beleléu. Recuperada parte da “credibilidade”, me tranquilizei um pouco. A dez dias da maratona, nem estava lembrando dela, estava surpreendentemente calmo e sossegado. Fui para a Unimed Run, no domingo anterior, pensando só em correr rápido (e quebrei a cara) os 5,6 km. Na 2ª feira da semana “decisiva”, no entanto, a ficha finalmente caiu e eu comecei a almoçar e jantar maratona. Os amigos foram sensacionais e conversar com eles por e-mail e Orkut me ajudou demais a domar essa ansiedade. Recebi “caminhões” de apoio e fiquei muito feliz em saber que tenho não só muitos, mas principalmente GRANDES amigos. Sou muito grato a todos. Não vou citar nomes, porque corro o risco de esquecer de algum. Mas você que me escreveu ou me disse, uma palavra que seja, nos dias que antecederam a prova, sabe de quem eu estou falando. Valeu, meu (minha) amigo(a)!!!

 

A semana demorou como nenhuma outra a passar, mas, como todas, acabou passando. E teve tons de drama. O Dudu teve laringite e até quinta, eu não sabia se teria ou não a companhia da mãe dele na viagem. Sem a Janete, eu até correria, mas não teria a menor graça (além de ficar difícil à beça, até porque eu mesmo só corro, o resto todo é ela quem faz). Chegou sexta e fomos encontrar o pessoal da EC Tavares na estação Vergueiro do metrô. De brincadeira, eu chamei alguns amigos paulistanos para passarem lá e baterem um papo, se estivessem de bobeira. E não é que o Guilherme veio mesmo??? (obrigado, cara, te devo mais essa !). A partida atrasou um pouco e o Hideaki deu o maior susto na gente chegando aos 44’ do segundo tempo. Eu estava consciente de que, como na viagem para a Meia do Rio, teria dificuldades para dormir no ônibus, então nem esquentei a cabeça. Mas que deu raiva estar quase cochilando quando fizeram a parada em Aparecida, ah, isso deu! O acidente na Dutra atrasou um pouco mais, o motorista fazendo city tour forçado idem. Chegamos ao hotel (o mesmo Windsor Florida da outra vez) já bem acima do horário previsto, fomos tomar o café da manhã e tentar descansar. Mas quem disse que eu conseguia? Não era bem ansiedade e nem TPM (tensão pré-maratona). Preciso confessar, estou ficando imprestável para dormir!!! Justo eu, que dormia na janela do "busão" da faculdade, vejam só... Estranhei colchão, travesseiro, barulho da rua, tudo! Estava quente, liguei o ar. Esfriou, tive que desligar. Passei a manhã inteira rolando na cama, desesperado sem conseguir nem cochilar. Começando a ver quatro meses de preparação escorrendo por entre os dedos. Xingando todo mundo e sendo xingado pela Janete por isso. Resignado, quando deu meio-dia e poucos liguei para o Hideaki e combinamos de ir fazer um pouco de turismo.

 

Encontramos ele, o Ortega e o Nivaldo (dois que também tinham vindo com o pessoal da excursão). Andamos pelo Aterro, tiramos umas fotos. A cada poste, um cartaz da maratona. Brinquei com o pessoal que estava montando o posto de hidratação. Deram risada quando eu pedi amanhã geladinha, hein! Fomos para o Botafogo Praia Shopping almoçar. A lasanha do Tiramisu foi um espetáculo, mas o que aconteceu na praça de alimentação foi ainda mais. Começou a barulheira, eu só vi o pessoal da Vivenda do Camarão saindo voado de dentro do restaurante. Vazamento de gás, pelo jeito. Eu, que sempre prefiro ser um covarde vivo, e que mais, tinha uma maratona pra correr no dia seguinte, me mandei dali e fui me esconder na “sacada” atrás do vidro. Alarme falso, felizmente, mas a chance de dar cocô ali era grande, viu? O shopping é “vertical”, tem oito pisos. Até a gente conseguir sair dali, World Trade Center era pouco... Dali fomos andar no bondinho do Pão de Açúcar, um belo passeio. Mas o tempo passou tão rápido que, quando vimos, já estava quase na hora de ir encontrar o pessoal para o grande programa do dia, o encontro de corredores-blogueiros. Fizemos então só metade, até o morro da Urca. Ficou a segunda parte, a subida até o Pão de Açúcar propriamente dito, para uma outra oportunidade. Mas já valeu, que visual é aquele? Ô, cidade bonita, essa...

 

O encontro histórico no Sindicato do Chopp (sem o próprio) no Leme só não foi ainda mais histórico porque, infelizmente, alguns não puderam estar presentes. Srs. Wladimir e Ricardo Hoffmann, eu aceito os argumentos, mas na próxima vou trazer os dois puxando pelo colarinho, ok? Mas a recepção que eu e a Janete tivemos desses amigos recentes, mas que parece que já conheço da vida toda foi qualquer coisa de espetacular. Obrigado, Leo e Cleidi, obrigado Jorge Maratonista, obrigado Paulo Massa. Legal demais também conhecer pessoalmente a Cilene do blog Pulso e o marido dela, Marcos; o Gian e o pessoal da equipe ACORUJA. Ganhei presentes (DVD do filme “A Longa Corrida” do Jorge e a camiseta que o Paulo mandou fazer para a galera), me diverti, comi pizza, bati um papo descontraído e agradabilíssimo, enfim, passei um final de tarde sensacional, entre amigos que fico feliz pra caramba que a corrida tenha me trazido.

 

Voltamos depois para o hotel e tive que correr atrás do meu kit, que o pessoal da Tavares tinha ido retirar (gostei da regata laranja). O Hideaki me chamou para ir jantar. Se eu soubesse que ele estava indo pro rodízio de pizzas, massas e crepes do Graça da Vila, acho que emprestava o estômago de alguém e ia também. Dez horas da noite fui me deitar e, na última vez em que olhei no rádio relógio, ele marcava uma e meia da madruga. Quando ligaram da recepção, mais que em qualquer outro momento da corrida, pensei na clássica frase “o que eu estou fazendo aqui???”. Menos de três horas de sono somando as duas noites. Andando que nem um zumbi mesmo depois do banho e do jato de água gelada na cara. Como é que um cara desses podia querer correr 42 km logo em seguida, me diz? Uma frase lida na internet e relembrada no sábado pela Janete passaria o dia na minha cabeça e seria o mote da minha estreia: “Correr é tirar o tigre escondido dentro do gato”. Tendo dormido ou não, essa seria a minha missão nesse dia.

 

Desci, tomei o café mais frugal que um glutão poderia tomar (a mousse de chocolate é que não caiu muito bem!) e pouco depois das 5:30 pegamos o ônibus em direção à largada. A “viagem” até o Recreio era longa, mas passou voando com o papo que fui batendo com o Hideaki. Estar ao lado de alguém que já ia para a quinta maratona (terceira do ano, agora ele é nível bronze no Marathon Maniacs!) e tentar absorver um pouquinho que fosse dessa experiência era questão de bom senso de minha parte. O motorista podia ser gente boa, mas como o danado se perdia fácil lá no Rio! Ainda bem que pelo menos não foi parar em nenhuma comunidade ... Chegamos, entrei na fila do banheiro, que a essa altura já estava ainda mais químico. Encontrei o Jorge, desejei boa sorte na meta de sub-3 horas dele. Procurei o Leo, o Ivo Cantor e a Angela, mas não vi nenhum deles. Fui aquecer (10 minutos, já despertou legal o corpo) e alongar. Aos poucos, fui esquecendo do cansaço e entrando no clima. A instantes da largada, já alinhado e tendo ao lado mais de mil corredores, agradeci pela oportunidade de estar lá, relembrei o caminho longo e difícil que tinha me levado até ali. E “fotografei mentalmente” a cena, que vai ficar registrada na minha memória por toda a vida, por mais corridas que eu venha a fazer daqui pra frente.

 

Com um atrasinho de dois minutos, demos o primeiro dos milhares de passos que começam qualquer estrada, seja qual for o tamanho dela. Essa seria longa. E começaria com uma sensação deliciosa de estar com o corpo em movimento. Cansaço já não existia mais, era como se eu tivesse dormido bem a semana toda e estivesse correndo a 3 km de casa, não a mais de 300. Tinha no bolso a “colinha” com os ritmos que pretendia fazer a cada quilômetro, rumo à meta da estreia sub-4 horas, que eu sabia ser muito difícil, mas que não me custava nada tentar também. Os primeiros três quilômetros, mesmo sem muita muvuca, seriam de warm-up, na casa dos 6 min/km. E foram mesmo. O botão de lap do meu Polar falhou, mas cheguei a ver o 6:01 na primeira placa. O sol começou bem fraquinho, mas a previsão de máxima de 30 graus assustava um pouco (mentira, assustava muito!). O retorno nessa prova não tinha nada a ver com o da meia do ano passado. Era curtinho, estreito (praticamente uma viela) e logo no começo. Nele, deveria estar a placa do km 2, mas eu não vi. Na do km 3 encontrei o Luciano, também de São José e na lista de passageiros do ônibus Caramelo que nos levou ao Rio. Parado ali, calibrando o sensor para os muitos quilômetros à frente. A minha marca, que ali teoricamente deveria ser de 18 minutos cravados, foi de 17:43. “Gordurinha” de 17 segundos só, ritmo sob controle, correndo com prazer (como sempre deveria ser, por sinal). Os primeiros quilômetros foram, mais que muito gostosos, inesquecíveis. Não precisava nem de relógio, o relógio era eu. Corri em um ritmo constante, seguindo os tempos previstos. Em algumas das placas de quilometragem eu não conseguia segurar a satisfação de estar absolutamente dentro da meta e murmurava um “perfeito”. Estava achando ali que, como tinha me dito o Fabio Matheus, era hoje o dia da alegria. Cabia a mim a parte de não deixar a tristeza pensar em chegar.

 

Depois do retorno, vinha a parte (psicologicamente) mais difícil da corrida: um retão de 18 quilômetros pelas praias. Monótono, meio inóspito (até cacto tinha!), praticamente sem ninguém fora os corredores. Um quiosquezinho aqui, um pescador ou surfista ali. Em trechos como este, não dá pra se distrair, a concentração, na minha opinião, tem que ser absoluta. Se você ficar observando a paisagem (que não muda nunca !), perde essa concentração e periga jogar a motivação lá pra baixo. Por isso é que estudar um percurso que vai ser percorrido pela primeira vez é importante. Ler relatos de outros corredores, aprender com a experiência alheia é sempre bom. Eu sabia que tinha esse retão torturante pela frente e fui preparado para ele. Isso me ajudou muito. Tudo continuava dentro do previsto, os ritmos seguiam bons, dentro ou até abaixo da meta. Correr em um ritmo mais fraco (também no meu caso, saliento) é sempre mais prazeroso, parece que você aproveita melhor o passeio. 

 

Outro detalhe planejado com antecedência era a minha estratégia de hidratação e uso de gel de carboidrato durante a prova. Sabendo de antemão o número de postos e a localização deles no percurso, além de procurar me informar com outras pessoas com (muitas) maratonas no currículo, resolvi levar no bolso seis sachês. Ficou pesado pra caramba!!! Como eram doze postos de água, seria um não e outro sim. O primeiro em que fui abrir um gel foi o do km 8. Nos treinos eu tinha experimentado pela primeira vez o Power Gel, já que quase sempre uso a marca Exceed (revezando de vez em quando com o Carb Up). Estranhei o sabor (baunilha) e a consistência, meio aguada. O de chocolate que eu tinha usado em um longão anterior, era pastoso e com um gostinho Nestlé. Como ganhei nos postos do percurso uns sachês de Exceed, patrocinador da prova, optei pelo tradicional.

 

A Janete tinha me dado uma outra sugestão antes da prova: dividir o percurso em partes e dedicar cada um deles a alguém. Foi isso que fiz. Os dez primeiros kms, concluídos em 57:52 (um pouquinho abaixo da meta até), foram para o Dudu, meu filho. Do 10 ao 20, a cada um escolhi uma pessoa da família e a imaginei ao meu lado, torcendo pra mim. Quando terminava aquele quilômetro, agradecia ao “torcedor” citando o seu nome. Do 20 ao 30, fiz o mesmo, mas para amigos que fiz nesses meus tempos como corredor. Também não vou citar nomes pelo mesmo motivo que disse no começo do relato, mas garanto que todo mundo que torce de verdade pra mim torceu também no meu pensamento neste trecho da prova. Do 30 ao 40, a homenagem coube à própria Janete, que na verdade merecia uma Comrades inteira por tudo que já fez e que continua fazendo por mim. E como ainda sobravam dois quilômetros e uns quebrados, esses aí ficaram pra mim mesmo, que também sou filho de Deus e mereço um pouquinho pelo esforço que fiz para estar ali, né não? Parece pieguice e tudo mais, mas se me ajudou a passar o tempo (e quanto tempo!) como ajudou, garanto que valeu muito a pena.

 

Quando as placas passaram a ter dois dígitos, o calor começou a apertar um pouco (não seria o vilão esperado, mas obrigou a dosar o ritmo) e me fez mudar de estratégia. Esqueci um pouco da “colinha” e nem esquentei quando vi o primeiro pace acima de 6 min/km. Eu sabia, na verdade, o quanto o sub-4 na estreia era utópico. Continuei correndo com prazer mesmo na dificuldade, que começava a mostrar que estava ali e não me largaria mais. Os dois copinhos do primeiro e segundo postos de água já viraram três: um pro “banho”, um pra beber e outro pra levar e abrir na placa do km seguinte. Mesmo seguindo ainda o script, começou a acontecer algo que também seria uma constante nessa história toda: o morre-ressucita-morre de novo. Uma hora eu achava que estava morto na prova, com um pace alto em um km. E logo no seguinte me recuperava, mesmo aparentemente sem forçar. Seria normal em uma altimetria variada, mas no plano??? Passei na “São Silvestre” com marca pouco acima da própria, 1h28min alto. A praia da Barra já não era tão deserta e tinha alguns gatos pingados incentivando os corredores (eu sou fã de carteirinha do povo carioca, mas não posso deixar de dizer que eles meio que ignoraram solenemente a sua própria maratona, principalmente na parte mais “badalada” do percurso).

 

O ritmo estabilizou mais alto, quilômetros terminados com 6 viraram coisa normal. Tudo bem, isso levaria a um resultado pior, mas ainda normal. As ultrapassagens recebidas desmotivavam um pouco, mas também na boa, seria mesmo impossível evitá-las. A marca da meia maratona chegou com 2h06min, tempo já meio alto, mas mesmo assim abaixo de duas provas de 21 km que fiz (Trilheira e Yescom; a última Frei Galvão nem conta). Ainda estava animado e curtindo muito tudo aquilo. Ainda mais quando finalmente acabou o retão e a paisagem mudou um pouco. Veio o elevado do Joá, uma subidinha chata, mas gostosa, sabem como é? Depois de tanto plano, é bom usar um pouco a técnica dos braços pra puxar no morro. Os dois túneis, e entre eles aquele outro aberto dos lados e com vista pro mar. Cenário lindo, como o da maior parte da corrida. E quase chegando na parte que eu já conhecia bem do ano passado, e onde achava que conseguiria me recuperar e fazer até o split negativo (tempo menor na segunda metade) sonhado. Veio São Conrado e a subida da Niemeyer, que eu tinha grande curiosidade de saber como reagiria nela depois de já ter corrido bastante. Na Meia do Rio de 2007, ainda no começo da prova e com aquela empolgação característica, ela tinha sido molezinha de tudo. Apesar do indisfarçável cansaço a essa altura da prova, a sensação de tirar o atraso e recuperar inúmeras posições na subida foi deliciosa, uma das melhores de todo o dia. Tinha gente andando, rastejando, chorando pelos cantos. E eu ali, cheio de gás, subindo devagar e sempre. A molecada do Vidigal batendo na mão e pedindo o boné (não pra mim, eu não uso!). Leblon e Ipanema logo ali, me esperando, sorriso no rosto. Mal sabia eu que antes disso, a prova acabaria para mim...

 

Tô mais que careca de saber que não se deve parar totalmente em corrida nenhuma, de qualquer distância. Mas eu senti uma necessidade extrema, e não era fisiológica, quase no final da subida. Meus pés começaram a “queimar”, uma ardência insuportavelmente incômoda. Encostei na mureta logo depois do posto de água, tirei tênis e meias e derramei um copinho nos pés. Aaaaaaaaaaaahhhhhhhh, que delícia!!!! Só que, no que fui me levantar e voltar a correr, aaaaaaaaaaaahhhhhhhh, que dor!!!! Deu cãibra na coxa e na panturrilha, travou tudo simplesmente. Mal conseguia me mover e ainda me passa um enteado de quenga dizendo que era psicológico. Psicológico o c...! Não sei quanto tempo fiquei por ali, mas quando cheguei andando (andando nada, me arrastando) à placa do km 29, o ritmo tinha sido simplesmente de 10:14 neste quilômetro. Foi devastador, não esse tempo, mas a sensação de quase invalidez, de ver toda uma preparação ir pras cucuias por causa de uma “bobagem” dessas. Tá bom, eu sei, é coisa que acontece e a que todo mundo está sujeito. Talvez eu devesse ter pesquisado mais sobre a tal da cápsula de sal pra repor o sódio durante a corrida. Contava com os postos de Gatorade (e tomei uma garrafa antes da prova também), mas no primeiro foi uma bagunça só, estavam esperando os corredores passarem pra só aí abrirem as torneirinhas. Obrigaram todo mundo a parar e eu ainda saí só com um fundinho de copo. Daí pra frente, já que eu estava indo rumo a Botafogo, ninguém calou o meu chororô.

 

O quilômetro seguinte, em descida, foi um alento. Um corredor ali foi muito gente fina e, notando o meu perrengue, até me deu o copo d'água dele. Parecia que ia passar, mas voltou a puxar a perna eu tive muito medo de travar de novo. Diminuí, passei na placa dos 30 km com 3:12. Aumentei de novo, voltei a fazer pace começando com 6 e achei que tava dentro da prova outra vez. Fiquei animado em Ipanema, quando o Luciano chegou e começamos a conversar. Mas durou pouco, tive outra cãibra mais fraca e só na “batata”, ele seguiu adiante e eu tive que sentar e chorar de novo. Mais um pace absurdo no km 33, de 9:39, mais caminhadas e “rastejamentos”. Faltavam “só” 9 km, mas naquele ritmo entre 7 e 8, isso significava ainda bem mais de uma hora... Foi batendo desespero. Queria aumentar e tentar correr mais forte pra abreviar esse sofrimento, mas simplesmente não dava. A cada tentativa, a panturrilha avisava que podia estourar de vez e me mandar para casa sem fazer o que tinha vindo para. O curioso é que esse ritmo lento, mantido por bastante tempo, tinha me deixado com a parte aeróbica intacta. Era muito estranha a sensação de ter pulmões, mas não ter pernas.

 

Em Copacabana, atitudes opostas chamaram a atenção. Ao mesmo tempo que a imensa maioria parecia achar os corredores transparentes, no máximo obstáculos entre eles e a praia, teve gente também capaz de atitudes nobres. A moça que encheu um isopor de gelo e distribuiu com muito boa vontade a quem passava, por exemplo. Cara, como foi útil! Usei de sabonete na testa (saiu até fumaça) e me refresquei do jeito que deu com as pedrinhas que levei na mão. Um lampejo de bom humor, no meio a todo esse suplício, foi quando uma senhora me perguntou por que eu estava andando. Respondi, sorrindo, que se fosse pra eu contar, a gente ia ter que conversar por muito tempo, que era uma loooooooooonga história. Tudo demorava, mas acabava passando. Até os 3 km de Copa. Quando finalmente veio a Av. Princesa Isabel, eu agradeci pela sombra dos túneis, porque nesse ponto o sol já castigava bastante. Apareceu o Pão de Açúcar, símbolo do objetivo a alcançar, que mesmo tendo sido visitado de perto no dia anterior, não deixou de impressionar pela beleza e imponência. Cumprimentei a Cilene e o Marcos na passagem pelo último posto no km 40. E na do km 41, abrindo o último quilômetro eu não resisti e “abri a torneirinha”. Por pouquíssimo tempo, é verdade, não dava pra deixar isso aumentar ainda mais o tempo. Mas por alguns instantes, passou um filme ali na minha frente: a contusão, as quinze semanas de treinos, os longões, as sessões de musculação que duravam duas horas e meia cada, as incertezas todas e o dia em que eu cheguei à conclusão de que podia mesmo estar ali junto com os outros maratonistas, mesmo ser ser um deles. Sim, porque maratonista é quem corre pelo menos uma maratona. Até o km 29, eu estava quase me tornando um também. Ficou para a próxima, portanto, a minha chance de entrar para o clube.

 

No km 42, do nada me aparece o Wlad. Um dia sou eu que ajudo, outro dia sou eu que posso estar desesperado por ajuda. Essa é a vida do corredor. Ainda bem... Esse meu novo, mas grande amigo praticamente me carregou nos últimos 195 metros. Puxou meu ritmo, me deu um providencial copo d’água pra jogar na cabeça, me incentivou até a dar um sprint inacreditável, que só pode ter vindo do fundo da alma, como também foi o grito que eu soltei ali. Choveram aplausos do público e eu não tinha nem como pedir pra pararem, já que não eram merecidos. Quando eu vi, o Wlad já tinha sumido, não tive nem como agradecer. Fui diminuindo até parar e passei sob o pórtico andando, tossindo feito cachorro e quase sendo jogado na ambulância pelo pessoal do apoio. Foi difícil convencê-los de que não tava precisando. O tempo final foi de 4h50min, 50 minutos (!) acima do sonho de consumo, segunda metade com split positivo de 38 minutos. O que não faz uma cãibra, hein? Eu vinha com perspectiva de fechar no máximo em 4h12min, mesmo com o “urso montado nas costas”, 4h20min (né, Sally?) no máximo. Mas o que me importa, pensando bem? A sensação de cruzar pela primeira vez a chegada da maratona foi tão boa que eu até quis repetir no mesmo dia. Depois de encontrar e cumprimentar o Hideaki, que chegou bem pouco depois de mim, fomos pegar o kit (medalha bonita, mas saquinho de frutas bem pobre; e só) e fui tentar encontrar o Wlad pra agradecer. A Aline, esposa dele, me contou que ele estava de novo no 42 esperando pela chegada do Leo. Fui pra lá. Daqui a pouco vêm eles, mais Cilene e Marcos. Estava com a musculatura totalmente destruída, mas não podia ficar de fora dessa festa. Vivi de novo a mesma emoção, cheguei junto do pessoal e fiquei (outra vez!) tão feliz como na minha primeira passagem por ali. O Leo merece, também enfrentou dificuldades na preparação e se superou muito para chegar lá. Parabéns, cara!!! Parabéns também aos neo-meio-maratonistas, Ricardo, Paulo Massa e Gian!

 

Passamos quase uma hora tentando voltar para o hotel. Primeiro que, depois que esfriou, as dores musculares aumentaram em progressão geométrica e impediam ritmos acima dos 25 min/km (hehehe!). Segundo porque cada hora aparecia um amigo corredor pra cumprimentar. E corredor não pergunta se tudo bem, pergunta como foi. Aí a gente tem que contar... E ouvir também! É um grande barato. Valeu a pena “perder tempo” por ali, abraçar os amigos e fazer planos para as próximas provas, que certamente hão de vir. Foi aquela correria só, voltar pro hotel, almoçar (Catete Grill de novo, pelo menos essa boa pedida do ano passado deu pra repetir) e arrumar as coisas. Viagem de volta tranquila, bem mais que a de ida. Só aí, quando nem precisava mais, fui dar uma cochilada na janela, como nos bons e velhos tempos... Pode?

 

Que venha então Porto Alegre no ano que vem, pra eu tentar de novo fazer uma maratona correndo de ponta a ponta, como deve ser. Isso se não me convencerem a ir pra Curitiba em novembro. Olha, querer ir eu não quero, mas vocês sabem que eu não sou muito de confiança, né?

 

Percurso:

 

Altimetria:

 

Gostei:

de estar apto para largar e conseguir terminar uma prova de 42 km pela primeira vez, do percurso, da recepção que tive dos amigos cariocas, das dicas e conselhos do Hideaki, da distribuição de água e gel, da sinalização bem-feita no percurso

 

Não gostei:

da bagunça no primeiro posto de Gatorade, do kit pós-prova

Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 5 (internet, cartão)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (valeu de novo, EC Tavares!)
- Acesso: 5 (idem)
- Largada: 5 (atraso insignificante e tranquila)
- Hidratação: 5 (tirando o bololô no primeiro posto de Gatorade, perfeita; conseguiram entregar água gelada até o penúltimo posto)
- Percurso: 5 (fora a monotonia do retão, perfeito também)
- Sinalização: 5 (a melhor que já vi em uma prova; só não vi a placa do km 2, mas me disseram que tinha sim; a placa laranja pra indicar o posto de água foi genial)
- Segurança/Isolamento do percurso: 4 (foi isolado, mas não foi muito respeitado; teve motoqueiro quase atropelando corredor)
- Participação do público: 3,5 (gente muito boa, mas frieza na maior parte)
- Chegada/Dispersão: 5 (tranquila)
- Entrega do kit pós-prova: 5 (sossegada)
- Qualidade do kit pós-prova: 3,5 (bem fraquinho)
- Camiseta: 5 (gostei bastante, laranjona e com mapinha atrás)
- Medalha: 5 (lindona e diferenciada por distância, só faltou a data)
- Divulgação dos resultados: 5 (no mesmo dia e com tempo líquido)

Média: 4,73

 

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Viagem:
344 km, 3 pedágios (Moreira César, Itatiaia, Viúva Graça)
BR-116 (Dutra)
São José dos Campos/Rio de Janeiro

Veja também:
O relato do Hideaki
O relato do Jorge Maratonista
O relato do Leo
O relato do Paulo
O relato do Ricardo
O relato do Wlad

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