15ª Maratona Internacional de São Paulo

http://www.maratonadesaopaulo.com.br

 

Geral: 98ª Corrida 2009: 14ª Corrida

Data: 31/05/2009 – 9h00min (domingo)

Local: largada na Ponte Estaiada, chegada no Parque do Ibirapuera – São Paulo/SP

Distância: 42,195 km (2ª) misto

Tempo: 4:47:58 (líquido) e 4:51:05 (bruto)

Velocidade Média: 8,79 km/h (2,44 m/s)  Passo: 6:49down(-13,99%)

Pontos (Tabela Húngara): 88

Temperatura: sol com nuvens, entre 18ºC e 28ºC solnuvens

Valor da Inscrição: R$ 40,00

Número de peito: 5511

Tênis: Asics Gel Kushon prata/amarelo (4)

 

Colocações:

Geral: 1999º (de 2713) 73,68%

Masculino: 1840º (de 2471) 74,46%

Categoria 35-39 anos: 334º (de 418) 79,9%

 

Resultado na Web:

http://www.yescom.com.br/codigo_comum/classificacao/codigo/p_classificacao01_v1.asp?evento_yescom_ID=1077

 

Medalha: ok

 

Camiseta: (poliamida, Amphibia)

 

 

Foto:

 

Álbum de Fotos

Vídeos:

 

Relato:

Wordle: 15ª Maratona Internacional de São Paulo

Ao contrário de algumas outras corridas, esta não começou com o fuóóó da buzina, com música, contagem regressiva ou tiro de canhão. Para mim, ela começou bem antes, ainda em 2008, quando decidi que ia participar dela e montei a minha planilha de treinamentos. Mais uma vez, sem o acompanhamento de um treinador especializado, mas procurando me basear em conhecimentos não só obtidos através de leituras, mas da experiência alheia. Fui de Smart Coach, ferramenta do site da revista Runner’s World gringa. No dia 30 de dezembro, em plena semana de comilança entre Natal e réveillon, fiz o primeiro treino do período de base. Seriam seis semanas nesta fase, priorizando rodagens livres, sem ritmo pré-estabelecido, buscando ganhar condicionamento físico, combinadas com séries de força na musculação, para aumentar um pouco a massa muscular (e ter o que perder mais à frente). Na segunda semana de fevereiro, iniciei a planilha propriamente dita, mais dezesseis semanas com treinos variados: longões, intervalados, tempo runs, regenerativos. Na academia, mudança de foco, a mesma série interminável de resistência usada na preparação para a Maratona do Rio, mudando alguns dos exercícios para não saturar. Planejamento, não faltaria.

 

Como qualquer estreante (responsável), levei meio que a ferro e fogo a “receita de bolo” em 2008, uma outra planilha bem mais rigorosa do que esta. E praticamente sem treinos de base, já que voltava da contusão séria que tive em janeiro. Fiz algumas provas curtas excelentes com os treinos puxados que a Contra Relógio me “prescreveu”. Mas cheguei meio estourado para a maratona propriamente dita. Desta vez, resolvi tentar não repetir os erros de novato que me pareceram mais claros. Peguei bem mais leve. Um pouco, propositalmente, de caso pensado. Mas outro pouco também por conta de contusões leves, mas extremamente chatas, que atrapalharam à beça a preparação. Foi um tal de dor em cima do tornozelo, na sola do pé, um punhado de coisinhas que, pior, surgiram justamente quando cheguei na fase aguda da planilha, onde os longões batiam nos 32 km, distância preconizada pelas teorias sobre corrida como sendo a máxima indicada no período “pré-maratonal”. Com a ajuda do xará e camarada Fabio Matheus, só fui chegar perto disso (e mesmo assim, menos que 29 km) no treino entre Taubaté e Tremembé que fizemos no começo do mês.

 

E haveria outras mudanças. Também não teve nutricionista, mas procurei usar de bom senso na alimentação, vigiando um pouco a boca nervosa, usando suplementação vitamínica nos dois últimos meses, pesquisando sobre reposição de sódio e potássio até encontrar os tais comprimidos Electro++ para usar durante a prova. Descansei mais, abrindo mão de alguns treinos que julguei mais realistas que o rei, inclusive nesta última semana antes da prova. Tentei segurar a ansiedade natural dos últimos dias antes da corrida, ocupando a cabeça com outras coisas pra não ficar com ideia fixa de maratona. Ao invés de viajar com antecedência, aceitei o convite do Michel e do pessoal da Vinac (valeu!) para ir de van no mesmo dia. Acordando de madrugada depois de dormir, pra variar, bem pouco na noite anterior, mas isso, infelizmente, é tradição. Enfim, procurei fazer quase tudo diferente, para no final da corrida não ter que reclamar que tudo tinha sido igual. Estrear em uma maratona no ano passado tinha sido fantástico, mas ao mesmo tempo um pouquinho frustrante, por conta de uma certa quebradeira (por cãibra) a partir do km 29.

 

Saímos bem cedo. A concentração estava marcada para as 5:15 e, mesmo com apenas um minuto de atraso, eu e a Janete fomos os penúltimos a chegar. O pessoal todo pronto para a prova de 25 km. O único que ia também topar os 42 era o Paulo, de Jacareí. Com a madrugada ainda escura e nebulosa, pegamos a Dutra e fomos embora. Com as dicas do GPS Matheus, que conhecia bem a região, evitamos as interdições e conseguimos parar perto da largada. Já que o desjejum tinha sido às 4 horas, o jeito era complementar o café da manhã. Na calçada mesmo, sentados no chão, mandamos ver no sanduba de salame, bisnaguinha com geleia e bolo de laranja com café. Energia extra para uma longa jornada.

 

Uma ideia interessante da organização foi ceder aos participantes um cartaz em branco e um pincel atômico para que cada um escrevesse suas mensagens. A minha foi para o Dudu: papai na Maratona de SP. Quem sabe um dia ele também não faça o mesmo?

 

Tínhamos bastante tempo para os preparativos, seria muito bacana, como sempre, encontrar o pessoal todo para um bom bate-papo. Mas andar por aí não era lá muito recomendável. Esperei sentado, de olho pra ver se encontrava algum camarada ao redor. Banheiros químicos incrivelmente (ainda) inodoros, algumas fotos com o pessoal da excursão. O tempo custou a passar. Já indo me posicionar para a largada, foi que finalmente comecei a encontrar alguns. Primeiro o camarada de São José, que eu não sei o nome, mas que a gente sempre se encontra nas provas por aí. Depois o Jerdal, na fila do pipi e, um pouco depois, com a família. Ouvimos o hino cantado (e bem) à capela enquanto eu terminava de matar a garrafinha de isotônico. E finalmente chegou a hora de começar o desafio. Levantei o cartaz para as câmeras e iniciei, andando por causa da muvuca, minha segunda tentativa de me tornar um maratonista (no meu conceito próprio, a despeito do que possam pensar outros teóricos sobre o assunto).

 

E começou bonito. Sensacional a vista da Ponte Estaiada sobre o rio Pinheiros multicolorida, totalmente tomada por corredores. Só poderia ser melhor se as largadas fossem melhor organizadas. Não faz sentido colocar atrás de quem vai correr 42 km gente que vai correr 25 e, pior, que vai voar em 10 km. O convívio seria curto, de apenas alguns quilômetros no começo do percurso. Mas inverter a ordem de largada evitaria atropelos desnecessários. Tenho uma certa birra, e não é de hoje, de ficar ouvindo “abre, abre!”. Seria fácil de evitar.

 

Logo na saída da ponte reencontrei os amigos Michel e Fabio Matheus, meus companheiros de prova nos 25 km do domingo anterior, mas que hoje tinham objetivo bem diferente do meu. Desejei boa prova e fui vendo ambos sumirem na multidão. Multidão que atrapalhou de ver a primeira placa. Ouvi alguém dizer a gracinha de sempre, “só faltam x” (no caso, 41), mas olhei em volta e não vi nada. Não apertei o lap e já comecei a prova meio desencanado com o ritmo. Tinha a clara percepção de estar pouca coisa acima dos 6 minutos por km, trotezinho suave e agradável, como a temperatura da manhã de sol entre nuvens, aquecendo os músculos e tomando gosto pelo movimento. Pegamos um trechinho curto do outro lado da marginal e já entramos na próxima ponte, a do Morumbi, para voltarmos ao lado de onde saímos e seguirmos adiante pelo retão.

 

A placa do km 2 eu tinha visto na passagem da van pela marginal e foi a primeira que encontrei no trajeto. A parcial de 12:26 era meio alta, mas não chegava a ser preocupante. De que adiantava começar forte, tendo tanto chão pela frente? Eu não tinha um script a seguir, como havia feito na Maratona do Rio, mas pretendia tentar acelerar, um pouquinho só, depois de já devidamente aquecido e acostumado com a corrida. Encontrei por ali o Hideaki, vindo de uma sequência impressionante de provas longas seguidas (Floripa, Castelhanos, Porto Alegre) e começando hoje também neste ritmo conservador. Aproveitei para colocar o papo em dia, já que a gente não se via pessoalmente desde a meia maratona em março. De passagem, fui cumprimentado pelo Marcel, que também não via há bastante tempo. O Batata, vendo que o meu ritmo estava então pouca coisa mais forte que o dele, sugeriu “pode ir”, mas deu a advertência: “só não quebra lá na frente, porque senão eu vou buscar”. Dei risada com a brincadeira, só fiquei na torcida pra que não fosse um tipo de premonição.

 

O primeiro posto de hidratação apareceu antes do km 4 e, embora o calor ainda fosse pouco, o abafamento tornou a água bem-vinda. Peguei dois copinhos, dei alguns goles em um, me molhei com o outro e segui na mesma passada. As parciais, no entanto, variavam um pouco: foram de 6:06 no km 3 e 6:34 (?) no km 4. A dúvida era se as placas, além de meio pequenas, estavam mesmo bem colocadas. Se eu perdi a companhia do Hideaki, ganhei duas novas: a do Guilherme, fazendo a segunda corrida de 25 km seguida; e a do Ricardo Hoffmann, vindo especialmente do Rio para esta prova. Escolta de luxo. Embora não quisesse prejudicar a prova de ninguém, não recusaria a companhia, já que ambos tinham proposto me acompanhar durante a primeira parte da corrida. Apareceram em muito boa hora, por sinal. Logo viria o grampo na Av. JK e a entrada do túnel Jânio Quadros. A molezinha estava pra acabar, viriam as primeiras dificuldades reais.

 

O pace seguia alto à beça, mas em um ritmo também bastante gostoso de correr, permitindo conversar tranquilamente. 6:12 no km 5 (já acima dos 31 minutos de prova!), 6:04 no km 6, já dentro do túnel (e encontrando placas irônicas de km 38, 37 no sentido contrário). Primeiro veio uma descida gostosa, na qual comentei que era impossível segurar. Fomos embalados por ela. Mas, em compensação, a segunda parte era em subida. Não dava a percepção de ser forte, a prova ainda estava bem no começo. Mas túnel é túnel, escuro, abafado, pra deixar qualquer “claustrofóbico” meio apavorado. Ainda mais um grandão que nem esse. Foi bom voltar a ver a luz do dia, na saída para a avenida do Jóquei. Agora sim, o ritmo parecia mais constante e condizente com a realidade. 6:07 no km 7, segundo posto de água, aproveitando para abrir o primeiro dos cinco sachês de gel de carboidrato.

 

A partir daí, a prova entraria em lugares bem mais manjados, cenário bastante conhecido de outras corridas como a Meia da Corpore. Perdi as placas dos km 8 e 9, não me lembro agora se não vi mesmo ou se vi e esqueci de apertar o botão do relógio. As placas da volta seguiam chamando a atenção no sentido oposto, bem como a montagem de uma bela mesa de frutas, que seguramente iria ser bem útil lá pelo km 35-36. Saindo do retão das avenidas Lineu de Paula Machado e Waldemar Ferreira, contornamos a primeira das muitas praças redondas pelo caminho, pegamos trechos curtos por outras ruas rumo à ponte da Cidade Universitária. As subidinhas curtas, comentei com o Hoffmann, iam cansando aos poucos, quase sem a gente perceber. km 10 com parcial altíssima, acima de 1h02min, Nem na Meia Trilheira, passando em fila indiana pelo matagal, tinha sido assim. Depois de enfrentar o odor peculiar do rio Pinheiros pela terceira vez no dia, iríamos entrar em um trecho cheio de chicanes e hairpins, no melhor estilo F1, com os bólidos mais potentes já vindo do outro lado, enquanto as “carroças” seguiam, firmes e fortes, ainda indo. Aproveitei, até para testar a quantas andavam os pulmões, para mandar um incentivo para o xará e para o Michel do outro lado da avenida. Mais à frente, Jerdal e Hideaki fariam o mesmo, gritando um “vai, Fabião!!!”.  Coisa intrínseca de corredores.

 

Seguimos pela Pedroso de Morais até quase chegar na Faria Lima, fizemos o retorno e pegamos a pista oposta. Passamos pelo miolo da praça Panamericana e continuamos rumando ao Parque Villa Lobos. O Hoffmann se animou com as barraquinhas de pastel e caldo de cana, quase que a gente fez o pit stop por ali mesmo. Mas eu tive mesmo que me contentar foi com a pílula salgada sabor uva, abstraindo o gosto horrível com a consciência de que ela tinha o poder de evitar cãibras devastadoras. Os paces seguiam altos, perto ou até acima dos 6:10 (não precisávamos nem nos preocupar com os pardais, a velocidade limite era 50 km/h), mas eu já tinha meio que desistido de conferi-los. O importante é que estava sendo bastante agradável correr ao lado dos amigos. Constrangia um pouco ver o Guilherme abrir trinta, quarenta, cinquenta metros, olhar pra trás e voltar pra gente não perder contato. Mas também ajudava. Ver o cara correr tão inteiro, sobrando na corrida, era um incentivo e tanto para prosseguir. Fiquei procurando o buraco que tinha me alijado da meia maratona de abril, mas o Kassab já devia ter lido o meu relato e, claro, tapado. Tem juízo, o alcaide, hehehe...

 

O retorno pela mesma Av. Professor Fonseca Rodrigues, mais um quadrante da praça, novamente a ponte (desta vez a subidinha já pareceu bem mais cansativa) e entraríamos em outra etapa do percurso,  para a qual todos os que já tinham corrido esta prova em anos anteriores, alertavam: o trecho dentro da USP. Na própria Meia da Corpore, feita duas vezes seguidas, e nos 25 km, só em 2008, eu não tinha enfrentado problemas, mas estes quinze quilômetros na Cidade Universitária seriam um divisor de águas. Não pela monotonia de cenário, volteios, falta de público ou coisa que os valessem. Mas por juntar óbvio cansaço àquela altura, perda da companhia ao encerramento da prova participativa e novas dificuldades altimétricas. Enquanto isso tudo não vinha, o negócio era continuar seguindo em frente. Contra o vento ("patrocinado" por uma marca de antigripal), quase sempre.

 

Entramos pelo portão 2, pegamos uma longa reta, demos uma breve parada no posto de isotônico. Andei para beber (era isso, ou aspirar pelo nariz) e lembrei que, com isso, teria que subornar as testemunhas para que elas não me entregassem. Passamos pela marca do km 20 e eu nem lembrei de conferir a parcial. Na do km 21, ela já era de 2h11min, com uma plaquinha extra logo à frente, indicando a metade exata do percurso. A projeção de 4h22min já começava a deixar os planos iniciais, não confessados em público, mas internos, um pouco mais complicados. Mas tudo bem, continuava tudo muito gostoso, a sensação de continuar indo em frente, chegar ainda inteiraço aos 50% era gratificante. Entrar na Av. Escola Politécnica fez cair a ficha de que a despedida dos amigos estava próxima. Fizemos ainda todos juntos a reta torta de ida, o cotovelo na Av. Jaguaré, o mesmo trecho do outro lado. Avistando o pórtico, agradeci aos dois pela companhia. O Guilherme disse que ali eles ficavam, mas seguiam na torcida por mim até o final. Passo de urubu malandro que fosse, certo, Hoffmann (e Ivo Cantor também)? Encontrei novamente, do outro lado da grade, o xará, o Michel, o Luis Carlos, o Venâncio e a Vanderléia, todos já com a participação nos 25 km encerrada. Não vi o Wilson, o Tonico e o Mineiro, certamente também já com a prova concluída. Saudei a todos e segui no que era a minha escolha própria.

 

Sozinho, bebi mais água, mastiguei mais dois comprimidos salgados e diminuí um pouquinho a passada. Segui, no sentido contrário, pela rua onde começava a prova de 25 km da Corpore. E avistei a estátua do cavaleiro na praça Ramos de Azevedo. A subidinha logo à frente, da conhecida (até então, apenas de nome) Rua do Matão, parecia tranquilinha, não justificando a fama. Mas vá dizer isso aos meus quadríceps. Eles já doíam bastante naquele momento, de forma até precoce. Subi uns dois terços dela correndo, depois optei por andar um pouquinho, apesar do incentivo do corredor que passou. Caminhada estratégica, tentando poupar ali para ter o que gastar mais à frente. Chegando à rotatória, retomei o trote. Naquele momento, ficava claro e cristalino o quanto os treinos mais longos, acima dos 30 km, planejados, mas não cumpridos, estavam fazendo falta. Teria que ser na marra dali pra frente. “Se” não existe em corrida (e nem na vida em geral), mas, ah, se pelo menos fosse plano... Juntar esse ponto, naturalmente crítico para a maioria dos corredores, com um trecho misto, com subidas nem tão fortes, mas bem desgastantes, dava à prova um grau de dificuldade bem maior que o esperado. E o conforto climático também tinha ficado para trás. A largada tardia (9h), por conta da transmissão pela TV, fazia a chegada à marca onde o urso monta nas costas acontecer já lá pelo meio-dia. O calor tinha chegado, felizmente não insuportável, mas já bem longe dos deliciosos 18ºC do começo da corrida. O Hideaki passou por mim e incentivou, dizendo que era pra eu seguir firme, nem que fosse andando. Ver a saída da USP logo ali, a marginal cheia de carros passando, me deu uma vontade imensa de por ali mesmo parar, pegar um táxi, um ônibus, uma ambulância, uma nave espacial, qualquer coisa que fosse. Mas pensei: tinham sido cinco meses de treino, muito sacrifício para estar ali. Será que valia a pena abrir mão de tudo por umas dorzinhas na coxa, na panturrilha, na sola do pé e, mais do que tudo, na cabeça? Eu estaria colocando em risco a minha saúde e a minha integridade física se continuasse? Para ambas as perguntas, achava que a resposta era não. Então decidi: seguiria adiante, ainda que não fosse com uma postura das mais bonitas. Olhava em volta e via que não era o único. Muita gente, na mesma situação, continuava na corrida visivelmente na base da insistência.

 

Passei pela marca do km 30 (com 3h13min), peguei o gelzinho gostoso de frutas vermelhas (igual ao que a Mayumi trouxe de NY). Alternava corridas nos trechos planos com caminhadas nas inclinações e quando voltava a sentir dores mais intensas. As laterais das coxas eram o que mais incomodavam, mas, ao contrário do que tinha acontecido no Rio (sobrou pulmão, faltou só perna), o cansaço era também um pouco aeróbico, não apenas muscular. Isso me induzia a andar um pouco até em trechos aparentemente fáceis. Os paces, que começaram com 6 e assim continuaram por boa parte da corrida, agora chegavam facilmente aos 7, 8, às vezes até aos 9 minutos. Alívio foi finalmente deixar a Cidade Universitária. Saí dela totalmente diferente do que entrei. Mas agora ciente de que não faltava mais tanto assim. Pouco mais de oito quilômetros. Fazia cálculos mentalmente, projetando modestas 4h40min como tempo-alvo. Mas sabia que teria que brigar muito para tornar isso possível.

 

Marcante, a partir dali, seria a solidariedade, que felizmente o ambiente das corridas, totalmente ao contrário do que ocorre fora dele, traz como norma. Não só entre os corredores, oferecendo água e incentivando, mas também dos espectadores e pessoal de apoio. As assessorias existem para dar suporte aos seus afiliados, mas vi várias delas também auxiliando gente que não tinha qualquer ligação. Recebi apoio, e muito válido, de pelo menos duas: a Tavares e a PlayTeam. Fico muito agradecido pelos gestos, estejam certos disso. Agora as frutas não eram miragem, tinha ultrapassado o km 35 e as bacias com gomos de ponkan, laranjas e pedaços de melancia estavam à disposição. Lembrando que isso também não era iniciativa dos organizadores da prova, mas de gente que, muito generosamente, se preocupa com o bem-estar do próximo. E como caiu bem, como já tinha sido no treinão em Taubaté/Tremembé, mandar pra dentro as mexericas. Mesmo me alimentando a contento antes da prova e repondo as perdas com gel, a fome, já perto da uma hora da tarde, era um fator a mais para aumentar a vontade de chegar logo. Peguei também um saquinho de gelo e, como já tinha sido em Copacabana no ano passado, serviu de “sabonete”. Os termômetros na rua marcavam 27, 28 graus, com sensação térmica de ainda mais.

 

Se o túnel, no caminho de ida, tinha sido meio sufocante, na volta, contraditoriamente, foi um grande alívio, pela sombra. Foi um trecho tão gostoso (principalmente na descida) que me fez voltar a correr no ritmo do início da prova, mesmo que por apenas um quilômetro. Os 6:16 no km 37 poderiam até indicar uma improvável ressurreição, mas eu, no fundo, sabia que não eram. A subida na segunda metade colocou as coisas de volta no seu devido lugar. Novas caminhadas forçadas, novamente de volta aos 8 min/km. Limitações físicas e também psicológicas. Vendo constantemente gente ficando pra trás, depois ultrapassando de volta. Topando toda hora com  a Renata Falzoni da ESPN Brasil, passando de bike, entrevistando e filmando a galera sobrevivente. Outro túnel mais à frente, o Tribunal de Justiça. Achei que já tinha visto a placa do km 40 ao entrar nele e fiquei momentaneamente animado com isso, mas furou a minha bola ver que ela, na verdade, estava um pouco depois. Com requintes de crueldade, a prova traz 35 metros de subida diluídos nos últimos 5 km e isso tornaria ainda mais complicado o seu final. Aquela rampinha que aparece junto com a grade do Parque do Ibirapuera é simplesmente mortal.

 

Tinha dado uma cantada na galera antes da prova, dizendo que o meu resgate da equipe 100 Juízo hoje não tinha vindo, e coisa e tal. E queria muito avistar alguém conhecido para me acompanhar (e não me deixar andar mais) na reta final. Quem apareceu foi o xará Matheus e o Luis Carlos, pouco depois da placa 41. E isso foi de grande valia (valeu mesmo, rapaziada!!!). Era pouco mais que um trote, mas era o que eu ainda tinha pra dar. O último quilômetro, junto com os 195 metros que o pessoal do Palácio de Windsor cismou de inventar, foi incrivelmente longo, percorrido em 8:43. Mas serviu para terminar correndo, ser saudado (e filmado) pela Janete, pelos amigos na arquibancada e por alguns espectadores, que diziam os nomes que viam nos números de peito. Não foi a maratona que eu queria fazer, muitas vezes durante o percurso me deu a sensação de que estava tentando fazer algo que não é pra mim. Mas não deixou de ser muito gratificante conseguir vencer o cansaço, as dores e, sobretudo, a falta de um preparo mais adequado, pra conseguir terminar uma corrida muito difícil. Desistir, ao invés de chegar daquele jeito, talvez tivesse sido até mais racional, mas nem sempre na vida se toma decisões com a cabeça.

 

Até então, não tinha praticamente nada do que reclamar da organização da prova (tirando a largada confusa). Mas as falhas gritantes começaram infelizmente a aparecer. Cheguei até bem, comparado a muitos que vi, mas já teve pessoal de atendimento médico me interpelando por bem menos em outras corridas, inclusive menores que esta. Desmaiou um ali, sentado do outro lado da rua, e não fosse a gente avisar, o pessoal da cruzinha vermelha nas costas teria passado batido. O Luis Carlos fez a gentileza de ir buscar o kit (até que bem recheado e com uma medalha muito bonita) pra mim, já que eu estava com uma bela dificuldade para andar, mas de que isso adiantou? Os caras fizeram o favor de cercar uma área imensa, obrigando de forma totalmente desnecessária gente que vinha de correr 42 km, um esforço considerável, a andar, sei lá, mais de um (pode ser percepção distorcida também), pra conseguir sair da arena do evento. E o staff ainda veio chiar quando o xará abriu passagem pra cortar um pouquinho de caminho. Precisa mesmo disso? Será que a “segurança” dos corredores de elite e das celebridades que foram dar uma (válida) corridinha de revezamento é mesmo necessária a esse ponto? Pra mim, faltou bom senso.

 

Custou, mas enfim consegui reencontrar a Janete (a quem dedico essa corrida; fazer o que ela faz por mim, realmente, só amando muito) perto do obelisco; e chegar de volta até a van, parada no estacionamento do ginásio. A preocupação era com o Paulo, que tinha simplesmente desaparecido. Mas o mistério felizmente foi solucionado: ele teve uma queda de pressão e teve que abandonar a prova no km 38, quando vinha muito bem, com projeção de fechar em 3h10min. Fica pra próxima, camarada! O “lanchinho” pós-prova foi um verdadeiro almoço. Do kit mesmo, só comi o torrone, mas, com o limpa-trilhos funcionando como nunca, tracei tudo o que aparecia pela frente. Até o saquinho gigante de batata chips que o xará foi buscar no carrinho. Não foi um Catete Grill pós-maratona do Rio, mas serviu pra repor parte do glicogênio, hehehe ...

 

Então é isso: agradeço a todos os que estiveram comigo nessa manhã/tarde de domingo, em pessoa ou em pensamento. Não foi brilhante e nem coisa pra se orgulhar, mas o objetivo fundamental foi cumprido: cheguei ao final da minha segunda maratona, inteiro, com saúde e (quase) pronto para as próximas corridas. Com dores musculares das boas, mas que passam, com algum descanso. Vou encarar de novo ano que vem, junto com a galera dos 25K automaticamente inscrita? Vou tentar partir para a Maratona das Praias em setembro? Não sei, vou pensar. Mas uma coisa é certa: em distâncias longas ou curtas, se Deus quiser, vou continuar tendo boas histórias de corridas pra contar.

 

Percurso:

 

Altimetria:

altmarasp2

 

Gostei: ok

de conseguir, apesar da dificuldade, concluir minha segunda maratona; do percurso, da distribuição de água, da solidariedade entre corredores e do pessoal de apoio, da medalha

 

Não gostei: nok

da camiseta (que não é ruim de tudo, mas decepcionou perto da que ganhamos na meia), das placas de quilometragem meio escondidas e, tenho impressão algumas mal colocadas, do grau de dificuldade aumentar em um ponto já naturalmente complicado, da dificuldade pra sair da arena da prova

Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 5 (internet, cartão)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (o Michel retirou pra mim, mas não citou qualquer problema)
- Largada: 3,5 (atraso pequeno, confusão desnecessária pela mistureba)
- Hidratação: 5 (excelente)
- Percurso: 4,5 (interessante, desafiador, variado; mas não precisava castigar tanto em alguns momentos)
- Sinalização: 3,5 (placas meio escondidas e, creio eu, sem muita precisão)
- Segurança/Isolamento do percurso: 5 (sem problemas)
- Participação do público: 5 (não em todo o percurso, mas onde tinha, ajudou muito)
- Chegada/Dispersão: 3 (preciosismo demais)
- Entrega do kit pós-prova: - (o Luis Carlos que pegou pra mim)
- Qualidade do kit pós-prova: 5 (caprichado)
- Camiseta: 4 (esperava coisa melhor)
- Medalha: 5 (linda, de bom tamanho, com data e diferenciada por distância)
- Divulgação dos resultados: 4 (no dia seguinte, por tempo líquido, mas eu ainda prefiro a boa e velha lista)

Média: 4,46

 

Links sobre a prova:

http://www.runnerbrasil.com.br/noticias.asp?IDNoticia=7869

http://www.webrun.com.br/corridasderua/conteudo/noticias/index/id/9689

http://www.ativo.com/Esportes/Pages/MarizeteMoreiravenceaMaratonadeSaoPaulo.aspx

 

Comentários no Fórum Runner Brasil:

http://www.forumnow.com.br/vip/mensagens.asp?forum=88968&grupo=217825&topico=3003357&nrpag=1

 

Viagem:
100 km, 4 pedágios (Jacareí, Parateí)
BR-116 (Dutra)
São José dos Campos/São Paulo

Veja também:
O relato do Guilherme
O relato do Hideaki
O relato do Ivo Cantor
O relato do Jerdal
O relato do Marcel
O relato do Michel
O relato do Nadais
O relato do Ricardo Hoffmann
O relato do Wilson Arantes

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